Um cravo chamado Celeste

A Primavera visitou-nos em março e floriu em abril, mais precisamente na madrugada de 25 e decidiu escolher o cravo para nos mostrar o seu esplendor.


Nas ruas a revolução anunciava-se e Celeste, meio metro de gente saia de casa e as fardas nada lhe diziam, não tinha idade para fantasias. Ia ligeira para o trabalho, precisamente um ano antes tinha começado a trabalhar no Restaurante O Sifire, famoso por ter sido o primeiro a introduzir o conceito de Self Service.


Não era a Leonor da poesia, ia formosa e segura preparar a festa de comemoração do primeiro aniversário da casa. Os patrões estavam em festa e não há festa sem flores, os cravos tinham hora marcada para dar aroma ao restaurante e colorir os sorrisos dos clientes.


A porta fechada não augurava nada de bom e o rosto do dono menos ainda. Conta Celeste que saiu com o regaço cheio de flores, para não se estragarem, o aniversário ficou cancelado, pois algo maior estava a acontecer e ninguém estava interessado em festas de comida, quando se preparava um banquete pela Liberdade.


Celeste, mulher curiosa, tinha de perceber o que se estava a passar. Se a família soubesse teria dito que era louca, por ir-se meter no meio da confusão. Era um risco, mas valia a pena e naquela altura não havia telemóveis, nem localizadores. Por isso Celeste entrou no metro, saiu no Rossio e gozou a liberdade de decidir onde queria estar naquele momento.


Celeste não sabia, mas já estava a dar uso à maior conquista daquele dia: a Liberdade de SER!

Celeste não sabia, mas já estava a dar uso à maior conquista daquele dia: a Liberdade de SER!

Se os cravos brancos e vermelhos que levava falassem, talvez tivessem abanado a folhagem com a mesma curiosidade de quem os transportava, para espreitar o soldado que se abeirou para pedir um cigarro.


Mulher trigueira, Celeste não fumava, não tinha tabaco para lhe oferecer, mas de coração ansioso e desejando agradar aquele rapaz que estava a guardar um bem maior na sua luta, resolveu oferecer-lhe um Cravo… podia ter sido um branco, não foi, porque o vermelho sempre foi mais atrevido e desejoso de saltar das suas mãos. Não era numa jarra que ganhava vida, mas sim na ponta de uma espingarda.



Este cravo atrevido iniciou também um movimento de liberdade e outros cravos saborearam o momento e das mãos das floristas do Rossio silenciaram as armas e deram cor à revolução.

Abril chegou, com a voz da Liberdade, no colorido dos cravos nas espingardas dos militares e no sorriso dos corações dos Homens.


Para acarinhar… regar… gritar e abraçar… A Liberdade é cravo em flor, se não se cuida vai definhar.


Sónia Gonçalves

Professora de História

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