“Olhar” sobre o mundo através do ensino da História e da Geografia

Os jovens de hoje, mais do que nunca, vivem o presente: o aqui e o agora. Envolvê-los nas aprendizagens da Geografia e da História é uma tarefa hercúlea e se houvesse filme a representá-la teríamos um Tom Cruise como professor das duas valências e na banda sonora os vários “T” da célebre música da Missão Impossível - século XXI.


Felizmente a vida não é um filme, mas é um palco onde os diversos docentes de Geografia e História são desafiados diariamente quando entram numa sala, onde tantos alunos encaram estas duas áreas, como chatas e pouco úteis, onde são convencidos que lhes vai ser servido um menu de conteúdos prontos a memorizar, despejar e seguir em frente sem nunca mais servirem para nada, a não ser para ganhar o Trivial ou o Pictionary.


Mudar o chip, a forma de percecionar a Geografia e a História, torna-se um passo fundamental. Numa época onde o foco é o presente e o futuro é importante ter duas áreas que permitem ao jovem estudante “olhar” o seu lugar neste Mundo, mas primeiro terá que fazer-lhe sentido, pois terá que compreender qual o contributo destas áreas para entender este tal Mundo onde vive.


Os recentes acontecimentos na Ucrânia despertaram as questões que não podiam ser respondidas através da Matemática, pois os números das baixas e dos feridos não precisavam de grandes cálculos e sim de análise. Também os materiais e as substâncias que constituem as armas químicas não são a máxima preocupação de quem olha para o conflito. As questões que assolam as mentes são: a Guerra vai chegar ao nosso território? Como é que isto foi acontecer? Porquê? Onde ficam as zonas de tensão? O que é geopolítica? Ditadura? Vamos morrer? (questão mais filosófica, porque um dia iremos todos conhecer esse destino, mas não será agora).


A sala de aula abriu o mundo e este deixou-se visitar, os alunos entraram em Geografia e em História procurando saber, desejando encontrar respostas.


“A sala de Geografia e de História é uma porta para o Mundo, é entrar e deixar a mente despertar.”

São bombardeados pelas notícias que entram pela televisão, pela rádio e, pela via que os jovens mais comunicam: a internet. Grande parte desta informação é trabalhada e orientada para nos guiar a opinião. Mas é na Geografia e na História que a análise imparcial é estimulada e desta forma, estas duas áreas mostram que o seu valor vai além de memorizar datas e acontecimentos em tabelas, biomas, climas, nomes de países ou bandeiras…


Nós, professores de Geografia e de História, somos assim uns privilegiados. Com os acontecimentos que entram sem convite nos nossos lares, todos os dias, através da Imprensa falada e escrita, nós, professores de Geografia e de História, sabemos que não salvamos vidas como os médicos, não inventamos equipamentos informáticos, nem desenvolvemos jogos, também não construímos edifícios, pontes ou aeroportos, mas temos um reservatório de experiências múltiplas que proporcionamos na nossa sala de aula uma viagem gratuita pelo mundo, iluminando o passado e dando luz ao presente.


Se um país está em Paz, como avaliar o impacto da Guerra sem recorrer à História e à Geografia? Como avaliar a ameaça contra a Democracia sem usar os conhecimentos ou experiências das ditaduras que existiram no passado? Como entender os conflitos políticos, sociais e económicos sem a noção do impacto das grandes revoluções agrícolas e industriais? Sem o conhecimento da geografia física de cada território?


A Geografia e a História abandonaram há muito tempo o papel de listagem de informação que morria no dia a seguir ao teste. São áreas dinâmicas, lecionadas por professores despertos à atualidade e que querem progredir, procurando a conetividade com o mundo atual. Abandonámos as aulas clássicas, meramente expositivas, trouxemos o presente e futuro para dentro da aula… Somos professores, mas uns privilegiados por sermos essencialmente guias para o conhecimento, partilhando saberes, levando os jovens à descoberta, incentivando-os a observar, desafiando-os a pensar, estimulando-os a resolver problemas e, acima de tudo, despertando-os a atuar, a formar opiniões e a desenvolver o espírito crítico.


Quando cada um dos jovens sai da aula, leva com ele mais uma semente para fazer crescer: a curiosidade sobre o mundo em que vive. Regar para dar fruto, não estagnar são os passos que cabem depois a cada indivíduo.


Os professores de Geografia e de História não fazem milagres, não combatem contra as disciplinas nucleares, nem querem guerra contra a sobrevalorização dos números e das engenharias.


A Geografia e a História só querem ver reconhecido o seu lugar no mesmo Mundo que ajudaram cada jovem a descobrir, unindo-se a todas as outras áreas, mas sobretudo, instigando os jovens a questionar o seu próprio Mundo e procurar formas de torná-lo um lugar aprazível para se viver, inspirando a reconhecer a importância da ética, da tolerância, da empatia, do acolhimento e da valorização da diversidade.


Sónia Gonçalves e Patrícia Gomes

Professoras de História e de Geografia

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